A ilusão da imortalidade

a morte na vida de cada um

Outro dia, na estrada de Piracaia a Bragança, dei carona para um senhor desconhecido, simpático e simplório. Conversa vai conversa vem descobrimos que ele conhecia meus avós e a conversa virou para os velhos que morreram. Ele mesmo estava indo para o velório de um amigo e declarou seu desconforto em ver seus amigos morrerem.

Lembrei-lhe uma história antiga:

Um rei começou a ter um sonho constante que lhe tirava o sono. Sonhava que estava no salão do trono e aos pouco o salão ia se esvaziando até ficar vazio. Chamou um sábio para interpretar seu sonho. O sábio vaticionou que o rei ficaria sem todos os seus amigos. Irritado o rei mandou matar o sábio. Veio o segundo sábio e disse que todos os amigos do rei iriam morrer. Irritado o rei mandou matar o segundo sábio. O terceiro sábio encarou o rei e sorriu: - Sua majestade vai viver tanto e reinar tanto deste trono, ter tão longa vida, que todos os que o rei conhece, não terão tanta sorte. O rei ficou satisfeito e mandou premiar o terceiro sábio.

A idéia da morte, mesmo que seja a única certeza de todo mortal, é evitada pela maioria das pessoas. Busca-se a ilusão da imortalidade ao negar a existência da morte, pelo menos para o próprio pensamento.

Quando se pergunta o que a pessoa faria se soubesse ter  somente mais seis meses de vida, normalmente se ouve uma série de sonhos a serem realizados, uma aventura a se concretizar. Ninguém sabe se vai viver mais um dia, mas procura não pensar nisso. A protelação, o deixar para depois uma série de coisas, é reforçar a idéia que vai ter ainda muito tempo para realizar tudo. E acaba não realizando nada, pois vai deixando tudo para depois.

No filme "O caçador de andróides", há uma discussão sobre a sensação de estar vivo e o saber do limite da vida. O andróide, ao segurar o caçador dependurado sobre o edifício, lembra ao caçador a felicidade que é não saber se vai morrer ou não naquele momento, ter a ilusão da imortalidade, enquanto ele, o andróide, fora programado para durar um tempo determinado, e cada momento é uma contagem regressiva.

não saber qual a data do fim da vida, é uma ilusão de imortalidade, vez que a morte não está presente nos planos de vida.


(publicado na Folha da Mantiqueira, Piracaia-SP, 1997)