48. A culpa do Déo.

Costumo dizer que todos os problemas da empresa começam no vendedor, que todos problemas da empresa São causados pela equipe de vendas. não fossem os vendedores não haveria problemas na empresa, pois não haveria a empresa. Se há muito serviço é porque os vendedores andam prometendo o que não se pode cumprir; e se há falta de serviço é porque os vendedores não estão cumprindo a parte deles que é vender. Se os vendedores ficam na empresa, sem sair, "estão coçando", se saem e não aparecem "vivem passeando".

Deusdedit de Oliveira, o popular Déo das Alagoas, era vendedor de carros numa revenda de Maceió. Cabra simpático, muito querido de todos colegas e da vizinhança. Estava bem de vida, tinha uma boa casa no Farol e uma de praia na Paripuera. Seu carro era um modelo do ano, luxo, com um som “melhor que boate”.

O Bio, de nome Severino da Silva, era mecânico da mesma empresa e muito amigo do Déo. Eram até compadres, pois o Déo batizou a Marina, filha mais nova (a quinta) do Bio.

Vez por mês, o Déo inventava uma coisa qualquer para comemorar e convidava o Bio e a mulher, com toda a filharada para uma buchada na Paripuera. Dali já saia compromisso para o domingo próximo,... pescaria na Barra ou caçada no sertão.

Os negócios iam bem. Até o Bio já estava animado a jogar o décimo terceiro e toda a poupança num Fusquinha que o Zé Alves andava oferecendo.

- Lá pelo São João, eu boto a família no pau-velho e me mando para o sertão de Mar Vermelho e levo a netaiada para o meu velho ver. Pensava firme o Bio.

As coisas em casa andavam bem. O empréstimo que o compadre Déo fizera para completar a entrada da casa, já tinha pago. As prestaçôes nas lojas, finalmente, ficaram em dia. Estava até fazendo novos planos esperando aumento para o mês.

Mas as coisas começaram a mudar. As vendas ficaram poucas, e por falta de negócios, os serviços da oficina iam escasseando.

Buchada e pescaria, começaram a fugir da agenda do Déo.

No aniversário de Marina, o compadre Déo não apareceu e a pequena ficou sem presente.

Um dia o Bio foi chamado no departamento pessoal e despedido. O chefe falou que a empresa estava ruim de dinheiro por falta de vendas e de serviço. Com isso tinha que reduzir as despesas com a folha de pagamento.

Bio come ou a procurar emprego noutros lugares mas a história era sempre a mesma - as vendas andam fracas , tá tudo ruim.

As prestações começaram a atrasar e faltava tudo em casa. Um dia, Bio sumiu. Foi embora sem dizer nada, nem para onde, só deixou um bilhetinho:

- "Num güento mais, tá tudo ruim. A culpa e do compadre Déo e da raça dele, aqueles vagabundo que não tão vendendo."