38. Plantão no portão

Na atividade de vendas se permite comemorar resultados praticamente todos os dias. Dependendo do produto e da situação de mercado, as reuniões de fim de tarde são sempre  festivas, sempre há o que se comemorar. Uma das coisas piores que enfrentamos é quando estamos cheios de vontade e de razões para comemorar e não encontramos ninguém para dividir nossa alegria.

[ esta história é continuação de: De porta em porta ]

Armando saiu daquela casa pelas cinco horas da tarde. Fora uma tarde de batalha mas saiu vencedor com 3 contratos na pasta. Sua maior vontade era encontrar os colegas e mostrar os pedidos. Estava tão contente que jogou a pasta para cima e chutou como se fosse uma bola, extravasando sua alegria.

Bom de vendas e ruim de bola, a pasta caiu dentro de um quintal.

E agora?

Tocou a campainha e quem atendeu foi um doberman muito do invocado. Por mais que insistisse na campainha, ninguém mais aparecia, até que o vizinho veio informar que o casal costuma chegar somente lá pelas 8 da noite.

Armando se aquietou por ali. Olhava a pasta, via o cachorro.

Deu nove horas e nada dos moradores chegarem. A fome apertava o estômago, e a carteira estava dentro da pasta. Do bar da esquina chegava um cheirinho de churrasco e frituras.

Para completar começou a cair uma garoa e o tempo começou a esfriar. O Armando na chuva, a pasta no jardim e o cachorro confortavelmente deitado na varanda olhando o portão.

Ali na chuva, com fome, com frio, esperou até dez e meia quando parou um carro e a mulher desceu para abrir o portão.

Teve que inventar que fora atacado por trombadinhas e num reflexo de defesa jogara a pasta para dentro da casa. Não sabe se convencera (trombadinha ali ?!) mas recuperou a pasta molhada. 

Pior foi explicar em casa, chegando naquela hora.