33. O vendedor analfabeto

Pela escassez de mão-de-obra qualificada, as empresas são obrigadas a recorrer a qualquer disponibilidade do mercado. Profissionais de venda são "coisa rara" pois a carreira de vendas no Brasil é muito rápida. Se o vendedor é muito ruim, acaba logo sendo desviado para outras atividades. Se acerta e consegue resultados, acaba logo sendo promovido a supervisor, gerente, diretor, quando não empresário dos seus próprios negócios.

A maioria que "está" vendendo é composta de elementos que sem conseguir promoção, apenas consegue se manter . Mas também conheci alguns bons vendedores, que não tinham nenhuma condição para assumir cargo de supervisão ou gerência, nem de administrar qualquer negócio pessoal, por isso permaneciam vendedores.

Eu estava muito folgado na revenda da região de Campinas-SP, revisando alguns procedimentos administrativos quando o Armando, um vendedor do tipo muito folgado, começou a insistir que eu fosse com ele "confirmar uma pendência" (verificar o carnê de pagamento de um consorciado contemplado). Eu não estava nem um pouquinho interessado, mas Armando era insistente, acabei saindo com ele.

Na estrada, no meu carro, eu dirigindo e ele contando estórias para passar o tempo. A cada momento, ele repetia: É logo ali, estamos quase chegando; e mais estrada pela frente.

Avistando um posto de gasolina, me convidou para um café. Fui parando no pátio do posto, mas ele insistiu que parasse bem na frente do escritório. Mais um pouco, mais ali; e quase me fez entrar com o carro dentro do escritório. Saímos do carro e ele se dirigiu para o dono do posto:

- Tá vendo o que você me faz passar! O gerente da fábrica veio buscar o grupo novo e não pode levar porque estava faltando a sua cota. Eu não deixei levar sem a sua cota. Ele teve que vir até aqui, só por sua causa. Toma, vai preenchendo a cota que ele está com pressa.

Armando parecia muito bravo. Mandou que servisse um cafezinho para mim dizendo que eu estava nervoso. Enquanto isso o dono do posto de gasolina preenchia uma inscrição.

Saímos dali, com uma venda feita. Eu esperava que o vendedor explicasse aquele procedimento, mas não comentei nada, nem perguntei. Voltaram as estórias, e de vez em quando: é logo ali, estamos quase chegando.

Mais de hora de viagem e chegamos na casa do consorciado contemplado. Armando me apresentou como gerente da fábrica e pediu o carnê de pagamento para verificação. O cliente foi buscar e trouxe o carnê para o vendedor. Do jeito que pegou, passou para mim, sem olhar, nem verificar nada. Olhei da data do pagamento, estava tudo correto, estava confirmada a contemplação. Ai, mais uma surpresa:

- Eu não disse pro senhor que não precisava vir até aqui? Toda essa viagem, a toa. Cliente meu, principalmente este aqui, eu garanto, ponho a mão no fogo. Tá vendo? não queria acreditar? Pode fazer a carta de autorização pra ele. Ele vai fazer outra cota, ele disse que faria outra quando saísse esta.

Entregou outra proposta para o cliente dizendo:

- Vai preenchendo logo que ele tá com pressa, tem que voltar para a fábrica ainda hoje. Não precisava vir até aqui, eu disse, mas ele quis vir.

Eu não estava entendendo aquele teatro, mas fiquei na minha; busquei a pasta no carro e fui fazer a "autorização". Nisso chega um vizinho e o Armando não perde tempo.

- Toma, vai preenchendo a sua proposta que a sorte está andando por esses lados. Aproveita que o homem da fábrica está aqui e já leva a sua.

Com esta foi a terceira venda do dia.

Na volta, ele não tocou no assunto e continuou contando suas estórias.

Chegando na revenda, fui comentar o dia com o gerente de vendas. Eram três vendas num dia, quando o normal eram dez por mês. Maior surpresa ainda estava por ser revelada pelo gerente:

- Imagine se ele não fosse analfabeto.

- Como? Analfabeto? Ele fez três vendas na minha frente?!

- Você viu ele preencher alguma cota?

- Não. É mesmo, todas foram preenchidas pelos próprios clientes.

- Pois é, não dá nem para perceber que ele não escreve. Ele sempre entrega o formulário para o cliente preencher. Muitas vêm com erros e eu acabo consertando por aqui. Ele não lê nada, mas é o melhor vendedor da região, ganha muito bem, tem um "Galaxie zero", com motorista particular porque não consegue tirar carteira de habilitação. A propósito, ele lhe pegou de motorista, hoje, porque o carro novo dele estava na revisão.