19. Jeans Lycra

Muito se tem falado que vender é atender as necessidades do consumidor, que alguém compra porque necessita daquele produto. Isto é, no mínimo um erro de enfoque. Basta você mesmo verificar entre as coisas que você comprou e constatar quanta tranqueira adquiriu sem estar realmente necessitado daquilo. A compra é realizada, ou levada a acontecer, por uma carência interna, geralmente inconsciente. Há uma falta de alguma coisa, uma insatisfação, um incômodo, um vazio, ou seja lá como for sentido pelo indivíduo, que precisa ser suprido por alguma coisa; por isso ele compra o que acha que vai satisfazer nessa situação. Há aquele momento em que o indivíduo pensa em fazer alguma coisa para si: tomar um café, almoçar fora, comprar um sapato, ir ao cinema, dar um passeio, trocar o carro, etc., e acaba por realizar uma compra. Vai depender muito do vendedor que encontrar pela frente nesse momento. É a realização de algo que venha suprir um desejo que nem mesmo ele, o comprador, sabe exatamente o que é. não é o produto que está importando no momento, é aquele algo indelével, indefinido, sub-reptício até, que o comprador não sabe o que é, ... mas quer. É a hora em que muitos vendedores se irritam com a indecisão do cliente que não sabe se compra uma escada ou uma bicicleta.

Por maiores que sejam os esforços para ganhar dinheiro. a finalidade é uma só: gastar. Feliz de quem encontra um bom vendedor pela frente que o ajude a gastar com satisfação. Vender não é pecado, é virtude. Mas uma das coisas mais raras ainda hoje é bom atendimento nas redes de lojas. Parece que definitivamente as grandes redes resolveram investir somente em propaganda, em promoções de preço e quantidade, deixando de lado qualquer preocupação com o cliente. Atender um cliente é fazer um favor. Se quiser comprar tem se sujeitar vontade do todo poderoso que ali se instalou. Quando se consegue um bom atendimento numa dessas lojas de rede, é de se estranhar.

Naquele dia, resolvi comprar uma calça de jeans lycra, e fui ao Shopping Recife.

Na primeira loja:

- Tem jeans lycra?

- Não. Sem qualquer atenção pessoal ou oferta possível.

Na segunda loja:

- Tem jeans lycra?

- Do teu tamanho, não tem . Fez-me sentir mais gordo do que o aceitável.

Na terceira loja:

- Tem jeans lycra?

- Custa 350 . Como se dissesse que era caro para mim.

Na quarta loja:

- Tem jeans lycra?

O vendedor fez uma mesura, deu três passos para traz me convidando para entrar. Segui o vendedor por dentro da loja. Lá no fundo, numa seção de roupas de verão, e o vendedor começou a me fazer experimentar conjuntos do tipo safari (eu estava usando um).

Quando percebi, ele já estava me chamando pelo nome, eu já tinha experimentado cerca de meia dúzia e estavam três separados e dobrados como se eu os estivesse escolhido, e junto,  três pares de meia combinando com cada conjunto.

O vendedor me chamou para outro lado e começou desmontar uma série de camisas para eu usar com a calça jeans. Separou três camisas e me chamou para a seção de sapatos.

- Não, sapatos não . 

Consegui sair do transe hipnótico e consegui recusar uma oferta do vendedor.

Armando me apresentou a conta pedindo que eu preenchesse o cheque, pois ele teria que "abonar". Foi preenchendo o cheque que lembrei não ter experimentado qualquer calça jeans.

- E a calça jeans?

- Infelizmente, eu não tenho hoje. Eu lhe telefono assim que chegar.

Sem maiores preocupações, com a maior segurança do mundo, pegou o meu cheque, entregou-me o pacote, e me acompanhou até a porta da loja onde se despediu de mim como se fôssemos velhos amigos.

Só em casa fui perceber a compra que fizera, e mais, as meias não teriam utilidade, pois naquele calor eu usava conjuntos com sapatos mocassim, sem meia. 

Só me restou escrever uma carta diretoria da loja, elogiando o Armando.