16. Dupla insistente

Armando vendia consórcio em Goiânia, usando um método de trabalho que envolvia duas pessoas: ele e ele mesmo.

Quando visitava um cliente e não conseguia vender, apelava para a ajuda do seu outro eu - "o supervisor". Do escritório, ligava para o cliente que não quisera comprar:

- Alo seu fulano de tal, aqui é o Sales, supervisor de vendas do Armando. Estou lendo o relatório de visitas do vendedor e percebo que ele NÃO explicou direito para o senhor o que é realmente o consórcio. não é possível que o senhor não queira participar, só pode ser porque o vendedor não explicou direito. Esse meu vendedor, o Armando, tem muito ainda que aprender. Olha só,... (explicava de novo todo o plano de consórcio, enfatizando os pontos que achava interessante para aquele cliente.)

Por mais que o cliente escorregasse e até elogiasse o serviço do vendedor, dizendo que ele tinha realmente explicado tudo aquilo, o "Sales" era inflexível, e até ameaçava demitir o Armando por não ter conseguido a venda. E completava sem dar chance ao cliente:

- Olha, senhor, eu vou dar mais uma oportunidade ao vendedor. Vou mandá-lo de novo falar com o senhor, e se ele não voltar com o contrato assinado, vai ser demitido.

De novo o Armando ia ao cliente, com cara de condenado, como se tivesse recebido o ultimato, mas agia junto ao cliente como se não soubesse do teor da conversa do "supervisor". Apenas dizia que tinha voltado porque lembrara de mais algumas coisas que tinha a dizer e que não ficara bem explicado. Mostrava-se esforçado, persistente, como se "alguma força" maior tivesse atingido a motivação do vendedor. Sem criar clima de maior pieguice, nunca dizia que seria demitido se não vendesse.

Como o cliente "sabia" do perigo que o vendedor estava correndo se não levasse o contrato, isso influenciava um pouco os seus instintos paternais, e o Armando sempre contava mais uma historinha qualquer para reforçar esses sentimentos.

Geralmente saia com o contrato.

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