8. O caderno preto

Armando estava em Ribeirão Preto, a serviço de uma multinacional, fazendo seu trabalho e treinando um novato.

Como parte do treinamento para testar a esperteza do novato, sempre costumava criar algumas situações só para ver as reações. Como em diversas atividades, os veteranos sempre encontram um jeito, s vezes engraçado, outras de mau gosto, para se divertir com os novatos. Algumas dessas brincadeiras servem de integração outras pelo contrário podem causar inimizades já no início.

Armando gostava de motocicletas e até tinha algumas habilidades. Já no fim do expediente, conseguiu uma moto emprestada de um vendedor local e intimou o novato para dar uma volta na garupa. Subidas, descidas, curvas, lombadas, e o novato agarrado na cintura do Armando sem qualquer esboço de medo ou de aprovação, apenas obedecia o comando do piloto.

Ao retornar para a empresa, Armando deu de cara com mais um carro da companhia naquele estacionamento e, pensou consigo mesmo que deveria ser um colega qualquer, mas aproveitou para assustar o novato:

- Ih cara, auditoria! Se o auditor nos pega andando de moto durante o expediente, estamos os dois na rua.

O novato arregalou os olhos, não poderia perder o emprego já na primeira semana de experiência.

Ao ver quem era o colega (que o novato ainda não conhecia), foi logo tratando como se fosse o chefe, e lhe apresentou o novato.

O "chefe" que também não era lá boa coisa, “entrou de sola” no Armando:

- Então seu chefe chega para acompanhar o seu serviço e o moço está por aí andando de moto?!

- Sabe, chefe, nós só fomos até ali para comprar um cigarro.

- Qual é, cara, eu sei que você não fuma. Também, não adianta mais, você já está mais sujo que pau de galinheiro.

- Pô chefe, o que foi? Descobriram alguma coisa?

- Não sei, isso você vai discutir na Diretoria de Relações Industriais.

O novato não sabia o que estava ocorrendo, aquela conversa parecia cifrada; parecia algo muito sério; não percebeu que estavam fazendo um teatro para ele.

Armando se fez de entristecido e perguntou se teria que ir logo para São Paulo. O "chefe", num tom de condescendência:

- Tá bom, faz de conta que não lhe encontrei hoje, assim você fica mais um dia; amanhã você vai embora. Vai fazer o seu trabalho, e mais tarde a gente se encontra para o jantar; ai você me passa o "caderno preto" .

O novato permanecia imóvel, quase nem respirava; Armando, como que disfarçadamente, disse para o gordo que caderno preto era a ficha de avaliação do novato.

- Então, Armando, amanhã você volta de ônibus e deixa o carro com o gordo.

- Mas chefe, o gordo não tem ainda autorização para dirigir o carro de frota. Tenho que voltar com o carro e o gordo fica com você.

- Mais essa! Vou ter que dar uma de motorista particular. Você sabe que não gosto de ninguém no meu pé.

Dito isso, "o chefe" saiu pisando firme, "contrariado", entrou no seu carro e foi embora. Armando se calou, como se tivesse ficado muito preocupado. Chamou o novato para realizarem a assembléia marcada em Sertãozinho, a cerca de 30 km.

No caminho não falava nada e o gordo estava cada vez mais agitado. Por três vezes pediu para o Armando parar o carro e correu para o meio do canavial, estava com diarréia. Finalmente explodiu:

- Olha Armando, eu vou voltar com você. Preciso desse emprego, mas não vou agüentar esse cara. Vou acabar batendo na cara dele e o negócio vai ficar mais complicado.

Durante a reunião em Sertãozinho, o novato ficou a maior parte do tempo no banheiro.

Chegando ao hotel, o "chefe" estava esperando para o jantar. O novato quis passar direto para o seu apartamento e disse para o Armando:

- É melhor eu me mandar; se ficar aqui eu quebro esse cara ainda hoje.

Percebendo que a brincadeira fora longe demais, contaram toda verdade para o novato, riram juntos da troça e explicaram que "caderno preto" era a agenda com os nomes das meninas da região. A diarréia sarou e a noite acabou num jantar a três.