6. Acabou a munição

Era um fim de tarde chuvoso em São Paulo, e fazia frio. O carro estacionado no Largo do Arouche, nenhum cliente por ali, Armando resolveu fazer mais uma tentativa com aquele protelador da Praça do Patriarca. Armando vinha tentando fechar aquele contrato nos últimos três meses, o cliente sempre apresentava uma desculpa e provocava o adiamento. Agora a campanha estava no fim, o contrato teria que ser conseguido

Garoa fina, pingos de marquises e pontas de guarda-chuva enquanto Armando se dirigia, quase sem esperanças, por meio a multidão. Praça da República, camelôs, Barão de Itapetininga, Viaduto do Chá, Praça do Patriarca. Subiu pensando que seria somente mais uma visita a acrescentar no relatório e uma pendência que permanecia nas estatísticas de negócios não concluídos. Lembrou da cara do supervisor.

A secretária, já velha conhecida, entrou para anunciar mais uma visita do vendedor e logo voltou chamando-o para entrar.

- Pois bem seu Armando, vamos lá, vamos fechar esse contrato de uma vez. Hoje é seu dia de sorte.

Armando nem acreditava no que estava acontecendo. Abriu a pasta para pegar o talão de pedido. Procurou, procurou, mas não encontrou, esquecera fora da pasta, no banco do carro.

Tentou pensar no que fazer, mas o cliente não deu tempo.

- Como é, vamos lá? Tenho mais o que fazer, estou saindo de viagem para o Nordeste e só volto no mês que vem.

No meio da batalha, o vendedor ficou sem munição.

Não houve jeito, teve que confessar a falha e pedir um tempo para ir até o carro.

A chuva aumentara, havia mais pessoas nas ruas, era hora de saída dos escritórios, as lojas estavam fechando.

O coração do Armando queria saltar pela boca. Tentava correr, não conseguia, era muita gente pelo caminho; quando percebia uns claros pela frente e corria, logo via que os claros eram por causa das poças de água. Correndo quando podia, lembrou que se alguém gritasse "pega ladrão" seria o primeiro suspeito.

A trancos e encontrões, chegou no carro, e pegou o talão. Não tinha mais pique para voltar. Arrastou-se de volta até a Praça do Patriarca. Chegou molhado, mais de suor do que de chuva. Ao preencher, tremendo, o pedido do cliente, jurava nunca mais sair sem verificar o material necessário.